Índia
Lilian Silburn: ACESSO AO SEM ACESSO
A definição mesma do Islã é uma afirmação explosiva e exclusiva da Unidade da qual todos os sufis são os defensores ardentes e sutis. No Tratado da Unidade, a fórmula célebre é explicitada assim: «não há Deus outro que Ele, não há existência outra que Ele, não há outro outro que Ele, e não há Deus se não é Ele» (34).
«A Essência de Deus é o mistério da Unidade» diz Jili.
E Al-Hallaj fala da Unidade enquanto «enigma obscuro para o qual não há nem viagem nem etapa».
«Enigma» pois Deus, diz ele, proibiu de atestar Sua Unidade e interditou de descrever o fundo de Sua Essência». Mas em um mesmo movimento denuncia a vaidade desta afirmação no entanto essencial: «Guarda-te de proclamar sua Unidade». «A Deus só pertence proclamar sua Unidade».
Com efeito, por um lado esta proclamação está muito fora da linguagem para ser expressa e por outro lado: «Saiba, diz ele, que o homem que proclama a Unidade de Deus se afirma ele mesmo. Ora, se afirmar a si mesmo é se associar implicitamente a Deus. Em realidade, é Deus Ele mesmo que proclama Sua Unidade pela boca de quem Ele quer dentre Suas criaturas».
O Pseudo-Dionísio, em um capítulo intitulado «Do perfeito e do único», escreve: «Único, é neste sentido que é todas as coisas de maneira sintética na transcendência de uma só unidade, e que produz todas as coisas sem sair no entanto de sua própria unidade... Este Um, causa universal, não é no entanto a unidade de várias realidades e é ele que define tudo junto unidade e pluralidade».
Numerosos místicos cristãos experimentam eles também a necessidade de afirmar Deus como o Um absoluto. Assim Mestre Eckhart: «Deus é o Um absoluto sem que aí se junte a menor multiplicidade de uma distinção, nem mesmo de um pensamento, do fato que tudo isto que está nele é Deus ele mesmo». E ainda: «É próprio de Deus e de sua natureza que o ser incomparável e de não ser semelhante a ninguém».
Em uma outra tradição, aquela do Xivaísmo de Caxemira, Abhinavagupta homenageia ele também a «Este Um cuja essência é a imutável Luz de todas as claridades e de todas as trevas, em que claridades e trevas residem, o Soberano mesmo, natureza inata de todos os seres...»
Mas, como Dionísio, se destaca a única Realidade de noções, tais quais dualidade, multiplicidade e unidade que se lhe sobrepõe arbitrariamente, e celebra «esta Luz consciente, ilimitada, autônoma, verdadeira, infinita, sem imperfeição, eterna, espontânea que dispersa as trevas feitas de dois inimigos irreconciliáveis: dualismo e não-dualismo...»
Sublinhando o caráter inefável da Realidade a fim de exprimir que nada não pode nem revelar o absoluto nem conduzir a ele posto que, sempre presente, ele é a evidência mesmo, Abhinavagupta, em sua glosa à Paratrimshika emprega o termo anuttara, «Insuperável», para designar a Realidade, jogando sobre a rica etimologia da raiz desta palavra: an-uttara significa «incomparável» — nada é superior à Consciência plena da Divindade — mas também «inexprimível» se se dá a uttara seu sentido de «especificações verbais», o anuttara transcendendo então toda distinção.
Se assim é, pergunta-se: «Face a este Insuperável e Inefável, que discurso pode haver e que via diferenciaria adorado, adorante e adoração?»